Com o tempo e as escovadas que a vida nos dá a gente vai aprendendo que há amigos e amigos de verdade. Estes, geralmente, são simples, reservados, se antecipam às nossas necessidades, estão sempre à disposição e tem prazer em compartilhar conquistas por menores que sejam. A gente os reconhece convivendo com eles. Em tempos virtuais, baseados na aparência, nas máscaras descartáveis que as pessoas criam para si de modo a impressionar e convencer o semelhante, isso é um privilégio.
O Hércules Marcos, meu amigo, é uma dessas pessoas da qual vale a pena ser amigo de verdade e cuja convivência, ainda que profissional, é um imenso prazer. Pena que desde ontem, vejo-me privado dessa convivência. O Hércules optou pela aposentadoria e agora vai se dedicar a outros afazeres, certamente mais prazerosos. O colunista social do jornal Diário e dos mais requisitados em Rio Claro. O fotógrafo que gosta de uma foto caprichada e bem produzida. Autor da coluna Sassaricando publicada aos finais de semana no indispensável centenário, trazendo os principais eventos de Rio Claro e região. Pouca gente sabe, mas, Hércules é também, professor de Educação Física, tendo lecionado primeiro em São Paulo, sua cidade natal e onde estão seus familiares. Aqui, em Rio Claro, eu já o conhecia, à distância, desde os tempos em que o Prof. Hércules era coordenador de esportes do Sesi, organizando com rara competência campeonatos de várias modalidades. À época, ao lado de meu o amigo desde os tempos de infância, Nelsinho Martinhi, eu era técnico de futebol das categorias Sub13 até Sub17. Orientava os meninos que sonhavam ser jogadores da Associação Atlética Santana e do Juventude FC. Estive também no CA Juventus, onde estreitei laços de amizade com o Prof. Valdir de Oliveira. Tempo bom. Quando havia esperança que tudo pudesse ser melhor neste país e pessoas honestas e decentes estivessem a comandá-lo.
Mas, enfim, o Hércules, esse amigo querido, vai fazer falta. Ontem, mesmo, já não fui à copa aqui no Diário, tomar o cappuccino da tarde. Era nosso hábito em comum por volta de quatro horas, todos os dias, onde conversávamos sobre as últimas do futebol e demais esportes e fazíamos projeções para as diversas competições em disputa. Não, eu não fui. Não tem mais graça. E olha que, por força de hábito, não recuso um café.
A vida é assim. Anos atrás, quando da primeira vez que trabalhei em uma redação de jornal, as coisas eram diferentes. Máquina de escrever, disputava-se à tapa, no bom sentido da palavra, o acesso ao telefone discado, a folha que não era sulfite, e que se chamava lauda e as fitas, nunca novas, sempre usadas, sem as quais, a máquina de escrever era inútil. Dias difíceis, mas, dias de aprendizado. Fiz ali, naquela empresa, um grande amigo também, o Maurício Beraldo. Sujeito idealista e bom de conversa, a exemplo do Hércules. Nós pertencemos a uma geração que, aos poucos, vai saindo de cena. O nosso jeito de viver, a arte e a cultura que admiramos, o jornalismo que aprendemos a respeitar, já não encontra mais ressonância neste mundo superficial, vazio, cheio de rótulos que nada dizem e formas sedutoras sem nenhum conteúdo. A gente vai sobrevivendo a cada dia. Tentando ainda encontrar alegria e satisfação nas coisas simples da vida. Como por exemplo, ter a companhia de um gato. Há dois anos ganhei uma filhote de minha filha. E lembro que, de tanto falar das peripécias da Madame Gaia para o Hércules, ele também arrumou um gatinho pra chamar de seu. O bichinho porém, ousadinho que só ele, saiu a passear certa noite e não voltou. Nosso amigo Hércules fez de tudo para encontrá-lo e não conseguiu. Então, eu disse a ele: Arrume outro gato. Pois só um novo amor preenche o vazio deixado por alguém. Soube do Hércules que o seu novo bichano, tem se demonstrado mais fiel, ainda que arteiro. Que bom!
Hoje seria um dia em que, lá pelas 5 da tarde, o Hércules me chamaria pra ver as fotos e dar uma olhada no texto da sua coluna publicada no caderno Sunday, aos domingos. Muito raramente fiz uma ou outra correção no seu texto. Escrever bem, sem falsa modéstia, é uma característica da nossa geração, que diferentemente da atual ou, das mais recentes, teve a alegria e o prazer de um ensino público de excelência. Fui até onde o meu amigo ficava e não o encontrei. Sua cadeira estava vazia e o seu computador desligado. Já senti saudade. E só me resta dizer, obrigado, meu amigo Hércules, meu amigo de verdade. A gente se vê por aí, a gente vai se falando. Sucesso e sorte pra você. Você merece.
Por Geraldo Costa Jr. / Foto: Rede Social