O simples ato de silenciar quando esperam que você grite desencadeia uma série de bons acontecimentos. Com consciência de que as palavras têm muito poder, lute contra você mesmo e decida ficar em silêncio, mesmo quando parecer irresistível a vontade de falar.
Mesmo porque quando essa vontade é irresistível, na maioria das vezes ela é desnecessária. É no silêncio que ganhamos força. Ele impede o arrependimento pelas más flechas lançadas. A cada exercício desse, maravilhas acontecem em nosso interior. Na resistência você ganha força. Na força, ganha paciência. E só com paciência é que atinge o melhor dos atributos humanos: a humildade. Tente.
Para esses tempos sombios, com suas polarizações, e a moda de dar viés político-partidário a quase tudo, mais do que nunca saber silenciar faz toda a diferença.
Ninguém parece querer refletir muito antes de tomar uma atitude de empreender uma ação. E muita gente ignora o arrependimento pelo mal que causa.
Somos reticentes e covardes para pedir desculpas. Dizem que é sinal de fraqueza. Soma-se à falta de grandeza e à covardia o cinismo.
Fala-se muito desse tal de “novo normal”, como se novos humanos surgissem após essa pandemia. Ao que parece, não há sinais claros disso.
A mais poderosa das armas que inventamos, mais terrível na sua capacidade de destruição, a mais covarde, é a palavra. A palavra destruidora realiza o Mal e não deixa vestígios. Filhos vivem condicionados durante anos pelos pais, profissionais são impiedosamente criticados, religiões incutem que sempre estamos em dívida, conosco, com o mundo, com Deus, por meio da palavra daqueles que se julgam capazes de interpretar a “voz de Deus”.
Religiões tradicionais estão perdendo adeptos para novas igrejas que trocam o discurso do pecado, igualmente pernicioso, pelo encorajamento e autoajuda. As instituições políticas e empresariais mudaram o sistema de punição, hierarquia e combate ao concorrente pelas positividades do estímulo, eficiência e reconhecimento social pela superação das próprias limitações.
A sociedade disciplinar e repressora do século 20 descrita por Michel Foucault perdeu espaço para uma nova forma de organização coercitiva: a violência neuronal. As pessoas se cobram cada vez mais para apresentar resultados.
Quem não se pune quando levanta cedo para ir ao trabalho, e pensa: “Que b#$@% eu estou fazendo com a minha vida?”. E aqueles sonhos todos, de largar tudo, ou de ser aquilo que não foi? Parece que todas essas perguntas, carregadas de genuíno sentimento humano, não podem ser feitas, tem de ficar suspensas, afinal é preciso reprogramar o cérebro para não sentir, para ter foco, para se concentrar naquilo que deves fazer, pensando numa recompensa imaginária, que nunca vem, para ter a tal da ‘resiliência’.
Mas a angústia sempre irá nos acompanhar. Fica nos esperando na esquina, no início da noite, depois de intenso dia de trabalho, e nos leva ao bar, às drogas, aos remédios, para dormir e outros para acordar.
No livro “A Gaia Ciência”, Nietzsche nos presenteia com um exercício mental intrigante: “E se um dia um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nada de novo, cada dor e cada prazer (…) há de retornar (…). Não se jogaria no chão e ficaria bravo com a criatura que te falasse assim? Ou você já viveu momentos maravilhosos, que pudessem justificar esta resposta a ele: “Sim, quero viver tudo de novo!”
A forma como você reagiria à proposta diz muito sobre o modo como você leva a vida, faz questionar (muito) sobre o rumo que dá a ela e como toma suas decisões.