Nanocontos
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Sigo comentando os nanocontos de Jaime Leitão. O nanoconto número 6 é direto: “Era mudo e falante”. Essa narrativa condensa uma história interessante que vivi na minha idade dos 08 anos.
A Lica, muda e surda, residia na casa da minha avó, sua prima. Tiveram a ideia de convidar, para fazer companhia à Lica, uma outra senhora, também muda e surda. E elas ficaram ali na sala um bom tempo. Tomaram café da tarde. E assim foi. Depois de umas três horas, aquela pessoa foi embora. Perguntei para a Lica como havia sido a visita. Ela, gesticulando com os sinais particulares que nós da família conhecíamos, disse-me que aquela senhora era muito faladeira. Interessante, não?
Avanço para o nanoconto número 15: “Escondeu-se do mundo”, que tem muito a ver com a história do irmão do Zé Luiz, que naquela época em que eu saía da adolescência para entrar na fase da juventude, ficava ele recluso no interior da casa e ninguém tinha notícia dele, salvo comentários aqui e ali. Aquela pessoa, socialmente, não existia. Eu mesmo nunca vi aquele cidadão passeando pela Praça da Boa Morte, que ficava próximo de sua casa, que era de esquina, uma casa amarela, térrea, com as janelas todas fechadas. Ali, o sol não entrava. E o luar não era recebido. Quando morreu, só os familiares foram ao seu velório. E o enterro foi de poucas almas. E, no jazigo da família, perpetrou-se o seu esconderijo.
O nanoconto número 16: “Ruiu, mas reconstruiu-se” tem expressiva ligação com o caso de um primo meu. Ivanilson, talvez o mais inteligente da família Oliveira, apesar de, no final, ter sucumbido como Salomão, rei de Israel. Esse primo meu, sem diploma de engenharia, montou uma empresa, não sei com quais sócios, e passou a fabricar uma peça que servia de engate para unir tubos e mangueiras para a Volkswagen. E isso lhe rendeu muito dinheiro. Essa foi a primeira vez em que ficou rico. As demais eu não me lembro. Como também gostava de mulheres, com elas gastava muito.
Meu pai disse-me em uma ocasião que Ivanilson ficou rico quatro vezes, caiu e todas as vezes se levantara. Até aqui ele havia podido se reconstruir. Tinha força e talento. Na quinta vez em que caiu da riqueza para a pobreza, pobre ficou. Sem dinheiro e sem mulheres, pouco tempo depois adoeceu e, menos tempo ainda, morreu. Grande primo esse Ivanilson. Uma vida de muitas histórias.
O nanoconto número 20: “Tornava difícil o fácil” me traz à lembrança o fato de um advogado criar problemas para um juiz da comarca, sem dar trégua. Depois de muito vai e vem, o magistrado, cansado da chatice do causídico, escreveu nos autos (naquela época as audiências eram físicas): “Vistos, etc {…} Acrescento que o advogado complica o que é fácil e não descomplica o que, realmente, é difícil”. Sem dúvida, o profissional deve ter ficado vexado com a ironia que lhe foi dirigida.
O nanoconto 23: “Irritante de tão legal” tem pertinência com aquele vizinho meu, que morava no Bairro do Mandaqui, na zona norte da capital paulista, e toda vez que ele aparecia na rua, eu tratava de me desencontrar dele. Interessante isso, porque ele era sujeito de bonsprincípios, sempre preocupado com o bem estar de todos. Tinha um cargo em um sindicato de operários. Quando não era possível evitar a sua companhia, ele, preocupado com tudo, começava a contar as agruras dos sindicalizados, que eram muitas, fatos esses que, naquela época de minha mocidade, não tinha nenhum prazer em ouvir. Sabia que ele era pessoa de grandes predicados. Mas, a sua pessoa, e aqui confesso desconhecer a razão, não me era nada aceitável. Ou seja, a sua boa pessoa me irritava.
Os jovens têm esses senões próprios da idade. Falta-lhes paciência para ouvir e acompanhar certos assuntos.
O nanoconto 38: “Amanheceu sem manhã” faz-nos lembrar de qualquer caso em que a pessoa, por algum motivo, venha a morrer durante a noite. Ela amanhece, no dia seguinte, inerte. Já sem a manhã do dia que nasce.