Fapesp: Cinco novas instituições aderem ao repositório COVID-19 Data Sharing/BR
Cinco novas instituições aderiram ao COVID-19 Data Sharing/BR, o primeiro repositório de acesso aberto do país com dados demográficos e de exames clínicos e laboratoriais anonimizados de pacientes que fizeram testes para a enfermidade.
Lançada em junho por iniciativa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), a iniciativa tem o objetivo de subsidiar pesquisas científicas sobre a doença nas mais diversas áreas de conhecimento.
Até o momento, a plataforma abrigava informações de pacientes, dados de desfecho e exames clínicos e laboratoriais realizados em todo o país pelo Grupo Fleury, e na cidade de São Paulo pelos hospitais Sírio-Libanês e Israelita Albert Einstein.
Agora, o repositório também disponibilizará os mesmos tipos de informações fornecidas pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), Beneficência Portuguesa de São Paulo (BP), Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), Instituto Pensi de Pesquisa e Ensino em Saúde Infantil – vinculado ao Hospital Infantil Sabará – e Real Hospital Português de Beneficência, em Recife (PE).
“O Hospital das Clínicas e a Faculdade de Medicina da USP se unem à FAPESP e a outras importantes instituições para ajudar no enfrentamento da COVID-19. É muito importante esta soma de esforços e reunião de informações para fortalecer as pesquisas nos diferentes centros pelo país”, avalia Tarcísio Eloy de Barros Filho, diretor da FMUSP, à Agência Fapesp.
O repositório já congrega dados anonimizados de mais de 332 mil pacientes, 16 mil registros de desfecho e um total de mais de 9,5 milhões de exames clínicos e laboratoriais realizados desde novembro de 2019.
Estudo relaciona vírus a síndrome rara que afeta crianças

Casos graves e fatais de covid-19 em crianças são muito raros. Assim, o caso de uma menina de onze anos de idade, sem problemas de saúde, mas que foi internada em estado grave e morreu devido a complicações causadas pela doença, foi analisado em detalhes por médicos do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). O estudo relatou, pela primeira vez, a presença de partículas do vírus da doença em células musculares cardíacas, determinando uma relação causal entre a covid-19 e a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), um processo inflamatório grave que pode afetar diversos órgãos, inclusive o coração. Os resultados do estudo, que contribui para entender os efeitos da doença, são descritos em artigo publicado na revista médica The Lancet Child & Adolescent Health. A SIM-P começou a ser relatada a partir de abril deste ano por médicos da Europa e dos Estados Unidos. “A síndrome é um quadro inflamatório sistêmico grave, identificado em crianças e adolescentes, que pode atingir vários órgãos, como o trato gastrointestinal, pulmões, pele e sistema nervoso central, e provocar disfunção cardíaca em casos mais graves”, afirma Marisa Dolhnikoff, professora da FMUSP e primeira autora do trabalho. “Ainda não havia confirmação de que a SIM-P fosse causada pelo vírus SARS-CoV-2. O estudo descreveu as alterações associadas à síndrome e buscou também determinar se existe de fato uma relação direta entre a infecção pelo vírus e o quadro grave de disfunção e falência cardíaca.”
A criança não apresentava doenças previamente existentes, e foi levada ao pronto-socorro do Instituto da Criança do HC em estado grave, apresentando desconforto respiratório, gripe, febre alta persistente e dor abdominal. “Após a entrada na UTI, o quadro evoluiu para disfunção cardíaca e choque cardiogênico em 28 horas, com necessidade de ventilação mecânica pulmonar e suporte de medicações para o sistema cardiovascular”, relata a médica Juliana Ferranti, que participou do estudo. “Foi uma evolução grave da covid-19, muito rara dentro da pediatria”. A confirmação da doença foi feita por um teste de PCR realizado após a morte da paciente.
Durante o atendimento, a paciente foi submetida a exames de sangue, radiografia e tomografia de tórax. “Devido à evolução clínica, que já sugeria um quadro de miocardite e choque cardiogênico, também foram feitos eletrocardiograma [ECG] e ecocardiograma [ECO] para avaliar a função cardíaca”, relata Juliana. “Os exames indicaram um processo inflamatório importante, com aumento de marcadores inflamatórios, e a evolução clínica, associada aos resultados do ECG e ECO, mostrava comprometimento severo do funcionamento do coração.”
Após a morte da paciente, para avaliar as alterações teciduais e os possíveis mecanismos fisiopatológicos associados à SIM-P, foi realizada a análise microscópica de tecido coletado de vários órgãos, através da autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassom. “Nesse método, as amostras de tecido são coletadas por agulhas direcionadas aos diferentes órgãos, usando a imagem do ultrassom como guia. Também foi feita a pesquisa de RNA viral em pulmões e coração através de exames moleculares (PCR)”, descreve a professora Marisa. “Além disso, o tecido cardíaco foi analisado por microscopia eletrônica, método que permite a observação do tecido com aumento da ordem de centenas a milhares de vezes, possibilitando a avaliação de detalhes celulares e a identificação da partícula viral.”
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