O Sr. Albert acordou às 7 da manhã naquela terça-feira e levantou-se para apanhar na área o seu exemplar do Diário do Rio Claro. Aproveitou para alimentar o seu gato intrometido que já o esperava impacientemente ao pé da cama. Teria um dia longo e difícil pela frente. Às 9 horas, faria sua visita habitual ao endocrinologista pra saber a quantas andava a sua diabetes. E, à tarde, daria um pulinho até o bom e velho amigo Armando, também conhecido como “Dr. Dedada”, pra se submeter àquela prática um tanto inconveniente porém necessária, que lhe permitia manter-se à distância o tanto quanto possível daquele malfeitor cruel e desumano que atende pelo nome de “câncer de próstata”. O pai havia morrido disso com 78 anos. E o Sr. Abert ainda tinha modestos 64. Nada mal. Havia algum tempo ainda para viver. E a cada dia, o professor aposentado e advogado nas horas vagas, Albert Spencer Jr, fazia uma celebração da vida.
Naqueles últimos dias, estava bastante contente porque havia conhecido uma nova paquera lá na tarde dançante do clube veteranos aos domingos. Uma moça educada, culta, contabilista aposentada e professora do EJA, nas horas vagas. Dançaram uma ou duas seleções, dividiram um refrigerante e uma porção de batata frita preparada pela cozinha da Dona Néia e então saíram pra tomar um sorvete, naquela loja bonita, recém inaugurada na rua Samambaia.
O verão tem destas coisas, lembrou-se o Sr. Albert enquanto apanhava a camisa no guarda-roupas. Adorava aquela camisa, que não tinha nada especial senão o valor afetivo que a ela dedicava. Uma camisa de manga comprida, cor de chumbo, fresquinha, que, em dias de calor como aquele, o Sr. Albert arregaçava as mangas até os cotovelos, o que lhe dava uma certa aparência jovial.
Diferentemente do pai, que jamais botara uma no corpo, o Sr. Albert vestia sem nenhum constrangimento calça jeans. E completava a vestimenta simples, casual, mas confortável e bonita com um sapato esportivo que dispensava meias.
Por falar nisso, enquanto passava o café na pia, sob o olhar atento de seu gato, deitado agora sobre o livro que deixara sobre a mesa desde a noite anterior, quando demorara a pegar no sono, o Sr. Albert se lembrara de que precisava marcar hora com a podóloga.
Não podia de modo algum sujeitar-se à vergonha diante da Sra. Suzana, caso a ocasião exigisse dele que calçasse um par de chinelos ou sandálias em daqueles agradáveis passeios que pretendia ter com ela.
Voltando à realidade, sim, o dia seria longo e difícil. Mas estava disposto realmente a torná-lo muito agradável. Aproveitou que o fogo baixo do fogão impedia que a água do café esquentasse rapidamente e tratou de responder às mensagens de bom dia dos seus amigos e amigas de whatsapp.
Algumas mensagens lhe chamavam mais atenção que outras. Eram aquelas que traziam algo positivo, belo e enriquecedor para a mente e o coração. Deteve-se em uma daquelas mensagens, que recebera no grupo da casa espírita que frequentava. Falava a mensagem que todos somos espíritos em processo de aperfeiçoamento moral, e, por isso, suscetíveis de erros e enganos. Dizia também que não devemos esmorecer diante dos possíveis fracassos e nem nos sentirmos culpados. Que melhor será encararmos todas as adversidades da vida como forma de aprendizado para o nosso enriquecimento como pessoa humana. Porque, afinal estamos todos nós, neste mundo, para aprendermos a ser pessoas melhores. E finalmente, que nada resiste ao progresso, que é lei de Deus, e que o melhor de nossas vidas, ainda está por vir.
Sentiu uma alegria muito grande ao ouvir o áudio dessa mensagem e tratou de compartilhá-la logo com seus familiares e amigos. O dia realmente começava bem. Dali por diante, dependia apenas do próprio Sr. Albert, para que o dia continuasse bonito e prazeroso. Foi assim que convenceu-se vez por todas, a ligar para a Sra. Suzana e marcar aquele encontro para logo mais à noite.
Por E. Cortez / Foto: ilustrativa/Reprodução Internet