O Diário do Rio Claro, uma vez mais, faz um arremesso ao passado de suma relevância. Desta feita, trará à tona o histórico do Gabinete de Leitura que, no último dia 23 de julho, completou 143 anos de existência. Novamente, o Centenário conversou com Francisco Herculano Penha Mena, pesquisador de fatos históricos que envolvem Rio Claro e pessoas da cidade, responsável pelo levantamento a seguir.
De acordo com Mena, o Gabinete de Leitura foi fundado em 1876 e inaugurado em 1890, portanto, o atual edifício do Gabinete de Leitura completou. Foi tombado quando do ano 1985 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). O pesquisador diz que, em São Paulo, há apenas outros dois gabinetes: em Jundiaí e Sorocaba.
“A ideia da fundação do Gabinete de Leitura de Rio Claro surgiu em uma reunião realizada na residência de Antônio Gonçalves de Amorim, na tarde de 25 de maio de 1876. Estavam presentes senhores representantes dessa nova pequena burguesia, alguns já abolicionistas, republicanos, maçons e positivistas. No dia 28 de maio, aconteceu a assembleia que elegeu a primeira diretoria da Instituição, composta por: Presidente – João Vergueiro Bonamy, neto do Senador Vergueiro; Diretor – Francisco A. Pacheco Jordão; Tesoureiro – Theodoro de Paula Carvalho; 1º Secretario – Zacharias Oliveira; e 2º Secretario – Francisco de Arruda Camargo. Em 23 de julho do mesmo ano, portanto, 1876, foi concretizada a fundação do Gabinete de Leitura Rio-Clarense com uma grande festa para a população, que contou com a apresentação de uma banda de música local e espetáculo de pirotecnia. Começou a funcionar em uma sede provisória situada à antiga Rua do Comércio – atual Avenida 1.
Os Estatutos do Gabinete de Leitura, de organização do Padre Flamínio Vasconcellos, demonstram a sua proposta cultural e pedagógica. Citava seu Artigo 1º: O Gabinete de Leitura Rio-Clarense é uma Sociedade composta de indivíduos de ambos os sexos, sem distinção de nacionalidade, e que tem por fim: § único:- Desenvolver o estudo e cultura das letras, indústrias, artes e ofícios: 1º Fazendo publicações uteis; 2º Discutindo theses litterárias e scientificas; 3º Adquirindo livros, jornais, mapas, revistas e manuscriptos para o desenvolvimento da sua biblioteca; 4º Instituindo cursos de instrucção primária, secundária e profissional, conforme os recursos da Sociedade; 5º Promovendo conferencias publicadas; 6º Estabelecendo oficinas.”
Mena afirma que, com exceção do item 6º – “Estabelecendo oficinas” –, todos os demais foram exercidos. Conforme ele, a preocupação com o ensino se justifica pela carência escolar de toda a Província, e acentuada em Rio Claro frente à inexistência de escolas publicas e o aumento da população no decênio 70 e 80 do século XIX. O curso primário era liberado para adultos e menores com autorização dos responsáveis, e o secundário dava preferência aos sócios e seus filhos, quando não era possível admitir todos os interessados. Mena expõe que na fase em que o Gabinete manteve-se na sede provisória – 1876 a 1888 -, há somente o Livro de Registro de Visitantes do Gabinete de Leitura Rio-clarense, 1878 a 1886, como fonte de suas atividades. Nele, se encontram assinaturas das seguintes personalidades: Conde D’Eu, em 15 de julho de 1877; Dr. Prudente de Moraes Barros, então deputado Federal, em 27 de janeiro de 1885; Imperador D. Pedro II, em 6 de setembro de 1886; afirma-se ser esta a sua segunda visita à Instituição.
“Nesta primeira década de funcionamento, o Gabinete de Leitura teve um desenvolvimento bastante significativo, tanto nas atividades da biblioteca, quanto nas da Escola Noturna, aumentando seu numero de sócios e acervo, mostrando-se, assim, necessária a construção de uma sede própria. Os fundos necessários para a construção do edifício foram levantados pelos seus próprios incorporadores, através da realização de espetáculos de tombolas, quermesses e empréstimos a juros. Parte do terreno escolhido, situado à antiga Rua Aurora – atual Avenida 4 –, foi doado pelo Major Carlos Emilio de Azevedo Marques. O projeto do edifício é obra do arquiteto Samuel Quilici, formado pela Universidade de Florença, Itália, que chegou ao Brasil em 1882, estabelecendo-se em Rio Claro, onde constituiu a família Quilici. O construtor responsável foi Antônio Rodrigues Pinto, que não mediu esforços para dotar Rio Claro de um portentoso edifício de dois pavimentos, de solida construção, e que ainda hoje faz figura entre os modernos prédios desta cidade.”
De acordo com Mena, com o porão alto, foi construído alinhado à rua e com recuo lateral contendo um acesso secundário. Na fachada, apresenta elementos neoclássicos, como platibanda, pilastras, com poteiras e guirlandas em massa, mas não há uma simetria rígida em relação às aberturas. Apesar da modulação regular dos vãos, nas fachadas posterior e lateral não possuem a mesma quantidade de ornamentos da principal, sendo a posterior a mais simplificada das três.
“O salão do térreo abrigava a biblioteca e, o compartimento menor, a sala de aula da Escola Noturna. O pavimento superior era o Salão Nobre do Gabinete utilizado para palestras e conferencias.
As paredes externas do térreo têm 60 cm de espessura e, as internas, 30 cm. No pavimento superior, as externas têm 45 cm e, as internas, 10 cm. Apesar de ser construído nos últimos anos da Monarquia, o edifício só foi inaugurado no ano seguinte, já sob a República, ostentando o ano de 1889 em sua fachada, como a marcar uma vitória ou registrar um feito dos homens que o constituíram. A importância da solenidade de inauguração, em 11 de maio de 1890, é medida pela presença de Prudente de Moraes, Presidente do Estado; Bernardino de Campos, Chefe de Polícia; e Cerqueira Cesar, Inspetor do tesouro. Naquele momento, sua diretoria era composta por: Presidente – Francisco de Paula Campos; Secretário – Eduardo Leite; Secretário – João de Souza; Tesoureiro – José Farani; e Orador Oficial – Dr. Luis Carlos da Fonseca.”
Ao Centenário, o pesquisador afiança que, de 1901 a 1909, a Instituição teve sua primeira crise, chegando quase a paralisar completamente suas atividades. Foi a partir de 1910 que Anchises Lima, o novo Presidente do Gabinete, tomou a iniciativa de reorganizar e reerguer a instituição, com apoio de outros interessados, parte deles já descendentes de imigrantes alemães e italianos. Pela primeira vez, o Gabinete foi incluído pela municipalidade em seu orçamento, recebendo uma verba de 200 mil réis.
“Dados do relatório da diretoria de 1911 revelam a fase próspera a que seguiu: recebeu 13 jornais diários; 14 semanários; e dez revistas; houve a retirada de 624 obras, totalizando 811 volumes, sendo 599 em português, 22 em francês, dois em inglês, e um em espanhol; a sociedade foi visitada por 160 pessoas; o acervo chegou a 1.115 obras, totalizando 1.645 volumes. Houve a instalação de telefone, doado por um de seus sócios, e a execução da primeira reforma do edifício, com a substituição das telhas francesas quebradas, por similares doadas pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro, bem como a substituição dos encanamentos.
Foi também reestabelecido o Curso Noturno, contando com 33 alunos e sendo nomeado Professor Arthur Fontes que, por muitos anos, seguiu responsável pelo Instituto. Constava no relatório do mesmo ano que era intenção da diretoria a criação de um curso noturno para ‘moças pobres, empregadas e que, durante o dia, não dispunham de tempo para estudar. Esta classe funcionará separadamente e ficará a cargo de uma professora’. Apesar de não haver notícias sobre a concretização da ideia, a atitude revela as intenções que marcaram a administração de Anchises Lima.”
Em 1911, segundo Francisco Herculano Penha Mena, também foi publicada a primeira edição de “A Revista”, que era o primeiro órgão de divulgação do Gabinete, e em seus artigos percebe-se a postura positivista dos homens daquela geração: “Depois de sete lustros respeitáveis o Gabinete vê, hoje, pela primeira vez fluir uma inovação proveitosa que se adapte com os fins a que ele se empenha. Elle precisa possuir um órgão da imprensa que faça echo do seu viver robusto e onde archive todos os seus atos.”
No ano de 1915, o acervo chegou a 1.301 obras, que abrangiam as seguintes “classes”: Historia, Atlas, Sciencias Phipsico-Naturais e Agricultura, Politica, Philosophia, Jurisprudência, Theologia, Biographias e Pedagogia, Direito e Medicina. Nesse período de 1910 até o final dos anos 20, a renda da instituição se dava pelo pagamento das mensalidades dos associados, aluguéis de quartos dos fundos e de donativos, vindos de particulares e do Departamento de Cultura de São Paulo. Monteiro Lobato foi fornecedor de livros para o Gabinete, pois há registro de pagamentos ao escritor no livro caixa de 1923. Aconteceu também neste período conferências literárias, com a presença de estudiosos da época, como Eduardo Leite, Nuto Sant’Anna, Arthur Bilac, Fabio Aranha, José Romeu Ferraz, Menotti Del Pilchia, entre outros.
“No Registro de Sócios, verifica-se que o gabinete também servia a moradores de outros municípios, como Itirapina, Limeira e Santa Gertrudes. A partir da crise de 29, porém, a Instituição não conseguiu manter a situação que vinha desde a administração de Anchises Lima na segunda década do sec. XX, e começa a declinar, chegando aos difíceis anos 30 em sua maior crise, com a paralização completa de suas atividades. Em 20 de abril de 1937, para evitar o desaparecimento da Instituição frente à precária situação em se encontrava, foi votada em assembleia a entrega do Gabinete à Prefeitura Municipal. O que se seguiu, porém, foi a transformação do edifício em sede do Tiro de Guerra e, posteriormente, em repartição para distribuição de açúcar.
Neste período, houve a perda de muitas coleções de livros e jornais, vendidos como papel velho. Em 1945, um antigo associado – Dr. José de Vasconcellos de Almeida Prado Jr. – tomou conhecimento dos fatos e, ao verificar que o ato legal da transferência não se completou, contendo documentos sem a assinatura dos responsáveis, retomou a posse do edifício como sócio remanescente. Solicitou ao Sr. Thimóteo Feijó Jardim – subgerente da Agência do Banco do Brasil – que assumisse a presidência da Instituição. Thimóteo Feijó Jardim convocou a classe bancária para a reorganização do Gabinete de Leitura, que doou horas de trabalho e foi responsável desde a limpeza dos livros, então bastante danificados, e pela classificação do acervo. Nesta fase de reorganização de 1945, a diretoria era composta por: Presidente – Thimóteo Feijó Jardim; Secretário – Alcides Verner; secretario – Luso dos Santos Ferro.”
O pesquisador conta que a Instituição ganhou vida nova, adquirindo boa frequência e aumentando seu número de sócios. Em 1951, já com a situação equilibrada, publicou sua segunda revista: “A Ideia”, que divulgava suas atividades, o movimento de sócios e de obras, além de outros assuntos, como Filatelia, Cinema e Crítica. “Em 1954, foi criada a Biblioteca Infantil, que abria, inclusive, aos domingos. E em 1966, em convênio com a Prefeitura, foi instalada no Gabinete a Pinacoteca Municipal Pimentel Junior, hoje mantida no Casarão da Cultura. Neste mesmo ano, foi executada a segunda reforma do edifício, com a construção de sanitários na área externa e reparos na cobertura”, descreve.
“O Sr. Luso dos Santos Ferro, que desde a retomada do Gabinete, em 1945, participava da diretoria, manteve-se à frente da Direção da Casa até os anos 70, e as iniciativas de sua administração projetaram ainda mais o Gabinete na vida pública rio-clarense. No início da década de 70, com o aumento da população estudantil de Rio Claro, houve a necessidade de ampliar o horário de atendimento e adquirir maior número de livros. Esta reorganização foi possível pela colaboração da Prefeitura Municipal, através do prefeito Orestes Armando Giovanni, e a participação da Profª Dalva Christofoletti da Silva, do departamento de Educação e Cultura. Em 1974, foi assinado o convênio entre o Gabinete de Leitura de Rio Claro e a Prefeitura Municipal, convertendo-o na Biblioteca Pública Municipal de Rio Claro.
Em junho de 1976, 100 anos após sua fundação, apresentava os seguintes dados: Visitantes da Instituição – 4.282; Livros pesquisados por estudantes – 4.533; Livros retirados – 2.461; Sócios inscritos no quadro social – 2.028; Volumes catalogados – 13.000. Nas férias escolares, a Casa promovia competições literárias e jogos de salão. Em 1985, quando o edifício foi tombado pelo CONDEPHAAT, seu acervo era de 25.000 obras, com 5.200 sócios, funcionando de segunda a sexta-feira, das 8 às 22 horas. Os maiores frequentadores eram estudantes de primeiro e segundo grau.
Atualmente
De acordo com Mena, o Gabinete de Leitura pertence ao Sistema de Bibliotecas Públicas de Rio Claro, que também conta com a BPM Maria Victoria Alem Jorge, localizada no Centro Cultural Roberto Palmari, e a BPM Zeferina Quilici Tedesco.Hoje, a maior parte de seu acervo tem origem de doações que ocorrem diariamente, segundo a equipe do Gabinete. Este material, antes de ser destinado a uma das unidades do sistema, é primeiramente armazenado em um depósito, enquanto aguarda o processo de triagem, limpeza e catalogação.O acervo do Gabinete conta com aproximadamente 53.818 volumes, isto é, 34 vezes maior que o de 1911, o dado mais antigo que se tem notícia, e quatro vezes maior que o de 1976, fase em que se tornou Biblioteca Pública Municipal. Este, característico de qualquer biblioteca, demonstra a necessidade de frequentes ampliações em edifícios destinados a este programa.
A sede centenária do Gabinete, no entanto, não sofreu nenhuma intervenção significativa desde sua construção em 1889. “Atualmente, a Biblioteca tem, em média, uma captação de, no mínimo, de 50 sócios por mês, onde, além de retirada de livros, é possível participar aos sábados de Bate-Papos Literários sobre vários autores. O gabinete realiza também diversos projetos de incentivo à leitura na nossa cidade, juntamente com o grupo de escritores ‘Ipses Literis’, recebendo também Oficinas Culturais e contação de histórias, que são realizadas ao longo do ano pela Secretaria da Cultura de Rio Claro. Estas Oficinas atendem jovens da rede pública de ensino. Também é possível encontrar oficinas abertas ao público no site da pasta (cultura.rc.sp.gov.br).”
Segundo a coordenadora Cristina Babone, entre 80 e 100 pessoas entram no Gabinete todos os dias. “Circula uma média diária de 120 livros”, garante. Ela também destaca o horário estendido do local, entre 8 e 19 horas, de segunda a sexta-feira, e aos sábados, das 8 às 17 horas. “Eventualmente, mestrandos e doutorandos nos procuram, mas acredito que por não estar digitalizado o acervo não é de conhecimento da maioria e poucos sabem de sua importância”, pondera. O Gabinete de Leitura fica na Avenida 4, 427, entre Ruas 5 e 6, Centro. Informações: (19) 3532-4077.
A Secretaria da Cultura já possui um projeto executivo para o restauro do Gabinete de Leitura, contabilizando um total de 2,5 milhões de reais, e encaminhado às Instâncias Estaduais e Federais na tentativa de obtenção desses recursos. Enquanto o Município aguarda a possibilidade de aquisição da verba, a Secretaria da Cultura segue realizando manutenções emergenciais no espaço.