
A rosa e os servidores públicos
► E estava lá: Rosa. Dia após dia, com dezenas de processos assegurados por seus braços. Percorrendo os corredores, tomando conta para que tudo não saísse fora do planejado. Lá fora, o caos, brigas e discussões. “Politicagem!”, ela me dizia enquanto percorria o local com aqueles calhamaços de papéis em pequenos passos.
► Algumas vezes pensei: se ela não vier trabalhar, a cidade toda para. Como pode? E passei a tentar compreender quem era ela, já que não ocupava cargo de confiança, não tinha gratificação, muito menos reconhecimento, tinha um dos menores salários de toda aquela gentarada…
► Rosa, sem saber, me ensinou um valioso ensinamento: o serviço público deveria ser uma vocação, ou melhor, uma convocação de servidão. Servir o outrem.
► Veja só, o quão nobre é tal tarefa. Entregar pacotes de sua vida para servir o outro, puro ato de compaixão. Se a única certeza de nossa perecível trajetória nesse mundo é que um dia tudo se finda, o mais nobre dos atos de qualquer um seria se dedicar ao outro. Olhe, sem rancor, sem descontentamento, sem desânimo, quantas pessoas estão, no dia de hoje, se dedicando ao próximo?
► No mundo às avessas que vivemos, o trabalho para muitos é um fardo, uma troca desleal de segundos de uma vida não vivida para garantir o sustento. E esse descontentamento é um gatilho para uma série de eventos de alguém que, no auge de sua vida, se sente vazio, sem propósito.
► Talvez um mundo guiado pelo consumo ou por desejos, uma busca voraz para novas formas de auto sabotagem…
► Convivi com servidores e servidores. Pessoas abnegadas como Rosa que, sem perceber, servem milhares de famílias em escolas, em repartições públicas, em postos de saúde, etc, a esse servidor: meu agradecimento. Eles contrastam com uma parcela de indivíduos perdidos, rancorosos, espertalhões que brigam com os segundos do relógio, todo santo dia e que propagam a fama que demonizou o servidor público brasileiro. E esse mito, meus caros, é um malefício. Pois geralmente quem o propaga não conhece nada de serviço público ou nunca conseguiu enxergar as milhares de rosas neste jardim.

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