Em seu ritmo cada vez mais acelerado, a sociedade contemporânea, diante da busca precoce pela realização profissional e financeira, geralmente não se atenta ao fato de que o ambiente acadêmico não se resume em adquirir informações para obter êxito em concursos.
A figura do professor, muitas vezes é traduzida como secundária e de pouca relevância, podendo ser desrespeitada ou até mesmo agredida, como frequentemente é relatado na mídia. Infelizmente, a desvalorização desse profissional intensifica-se com ações e omissões do poder público, além de más condutas das próprias escolas, alunos e familiares de alunos.
Segundo uma pesquisa recente feita pelo “Movimento Todos Pela Educação”, 49% dos docentes do Brasil não indicariam a carreira para um jovem. Os motivos para isso são exatamente os supracitados, o piso salarial desproporcional à carga exaustiva de trabalho e, principalmente, a falta da valorização de professores.
A reportagem do Diário do Rio Claro contatou renomados docentes da cidade e estudantes de pedagogia e concluiu que, como em qualquer outra profissão, as adversidades podem ser vencidas com o empenho e paixão pelo o que se faz.

Manoel
De acordo com o professor, doutor e coordenador do curso de pedagogia do Claretiano Faculdade em Rio Claro, Manoel Valmir Fernandes, o número de alunos interessados em seguir a carreira de docente vem aumentando bastante. Segundo ele, dados do Censo da Educação Superior do Ministério da Educação indica que a procura pelo curso de Pedagogia ocupa a terceira colocação, atrás apenas de Direito e Administração. Outra referência importante apontada por Fernandes, é o Sistema de Seleção Unificada (SISU). Nele, o curso de Pedagogia aparece como o quinto mais procurado.
“Os jovens, em sua maioria, optam pela docência, porém, pessoas de todas as idades e profissionais de outras áreas enxergam no curso de Pedagogia a possibilidade futura de estabilizar-se profissionalmente e economicamente, em razão do ingresso na docência dos sistemas municipais e estaduais de ensino via concurso público”, afirma o doutor.
Segundo ele, os principais motivos que levam os jovens a escolherem a profissão de educador foi levantado em uma recente entrevista desenvolvida com jovens que ingressaram em cursos para a docência. Entre eles, está “aquilo que o papel de um ou vários professores representou ou representaram na vida acadêmica desses jovens”. Isto é, muitos professores inspiram alunos na escolha profissional. Entre outros motivos, estão a referência familiar, ou seja, o fato de ter algum professor na família. A amplitude da carreira docente, como a possibilidade de se atuar em várias áreas (Escolas, empresas, hospitais, Organizações Não Governamentais), e ciclos (Educação Básica, Educação Superior, Pesquisa, Extensão), também estão entre os motivos citados. Por fim, o amplo oferecimento de vagas em concursos públicos também aparece nessa lista.
Em relação aos medos enfrentados pelos educadores, doutor Fernandes acredita que depende muito do local onde o professor atua ou atuará. Ele afirma que, de modo geral, os maiores medos estão relacionados ao enfrentamento de possíveis situações de violência, ao desrespeito e a própria falta de reconhecimento. Especialmente, no início da carreira. Outro medo listado por ele são os desgastes intensos provocados por longas jornadas de trabalho, pela necessidade intermitente da atualização profissional, além da celeridade causada pelo mundo atual.
“Para mim, a figura do professor em termos de valorização se assemelha à maioria das profissões. Depende do local, da situação, do momento, da conjuntura. Essas circunstâncias determinam maior ou menor valorização. Assim, há professores que ganham muito bem, têm ótimas condições de trabalho, são respeitados, enfim, são valorizados profissional e socialmente. Como existe o contrário: professores com baixos salários, sem apoio, sem condições para exercerem dignamente suas atividades, desrespeitados, portanto, subvalorizados ou totalmente desvalorizados”.
Para o coordenador, nessas circunstâncias, cabe a todos – governos, sociedade e os próprios professores – identificar tais condições para mudar esse quadro, uma vez que, relacionada à educação, está boa parte da sobrevivência de todo e qualquer projeto de uma nação. Dessa forma, ele alega não ter dúvidas de que ser professor é uma ótima opção profissional, assim como ter professor valorizado seja uma condição imprescindível para um mundo melhor.
Aprender a aprender

Huemerson
O professor de física, mestre e coordenador pedagógico do Colégio Puríssimo e de uma faculdade privada em Araras, Huemerson Maceti, acredita que a desvalorização da carreira de docente ocorre há muito tempo, tanto por parte dos governos, quanto por parte da própria sociedade. Alguns dos exemplos dados por ele desta desvalorização são a baixa remuneração para professores de Ensino Básico (especialmente no setor público), a falta de sistemas eficientes de aperfeiçoamento e formação continuada, o desinteresse de alunos e até mesmo a superproteção de pais que, ao invés de cobrar uma postura de empenho e respeito dos filhos, culpam os professores pelos baixos desempenhos na escola.
“Algumas famílias depositam na escola toda a responsabilidade pela educação dos filhos, esquecendo-se de seu papel fundamental na educação e imposição de limites. A correria do dia a dia e a necessidade do extenso período de trabalho têm afastado a família da participação efetiva na vida escolar dos filhos e nos assuntos da escola. Em muitos casos, o professor é tratado como um personagem de segundo plano, um coadjuvante de pouca expressão que pode ser desrespeitado ou até mesmo agredido, como frequentemente é relatado na mídia. Além disso, em muitas escolas faltam recursos essenciais como bibliotecas, laboratórios e até mesmo computadores e materiais básicos como papel”, afirma ele.
Na opinião do pedagogo, a cidade de Rio Claro é um oásis em meio ao descaso com a educação no país. Ele afirma que a Cidade Azul condensa um seleto grupo de escolas de alta qualidade, faculdades e Universidades, além de famílias que investem em Educação. “Fazemos parte de uma região envolta por faculdades, centros universitários e universidades de referência nacional. Somos privilegiados e fico feliz que meu filho possa viver aqui”, comenta ele.
O mestre finaliza alegando que a carreira docente é maravilhosa e traz grandes desafios. Ele aconselha que, ao escolher ser professor, o mais importante é dedicar-se desde o início a “aprender a aprender.” “Algumas pessoas optam pela carreira docente como um “bico” e isso é lamentável. Se quiser ser professor, dedique-se a esse propósito. Saiba que a carreira tem problemas, como todas as outras, e informe-se sobre salários e condições de trabalho. Uma vez que faça essa opção, dê o melhor de si, sempre. Lute por condições cada vez melhores de trabalho, mas não descarregue seus descontentamentos em cima dos alunos”, aconselha ele.
Professores, sustentáculos da sociedade

Maria Dalla
Atualmente aposentada, a professora Maria Dalla Costa Raphael da Rocha, de 80 anos, afirma que, apesar de ter muito orgulho da sua profissão, não recomenda a seus netos seguirem o mesmo ramo nos dias de hoje. “Eu tenho o privilégio de ser reconhecida pelos meus queridos alunos. Entretanto, nos dias atuais, este respeito já não existe. Hoje, um professor, que é a base do saber e conhecimento de uma nação, sofre com todo tipo de agressão e desrespeito. Assim, todo amor que tive pelo magistério não poderá ser vivido pelos meus netos. No passado, as dificuldades eram pequenas. A falta de tecnologia não impedia um bom desenvolvimento de uma aula e a transmissão do conhecimento. Nos dias atuais, o principal problema é a banalização do professor, que não é respeitado pelos alunos, sociedade e governo, causando todo tipo de violência dentro das escolas, bem como pouco aproveitamento acadêmico”, disse.
A persistência do sonho
Mesmo desencorajada por familiares e docentes, a ex-estudante de Direito, Luiza Prado Claro, abandonou o curso para seguir o sonho de ser professora. Assim que contou para conhecidos que decidira cursar pedagogia, a jovem sentiu na pele o preconceito em relação à profissão.

Luíza
“Disseram que eu não seria capaz de sustentar minha família e proporcionar os devidos luxos aos meus futuros filhos”, informou a jovem de 22 anos. “Me disseram que eu teria de suportar alunos que ameaçam, perseguem e, por vezes, agridem seus professores, e que só irá valer a pena se eu trabalhar em escolas particulares”.
Mesmo depois de cursar quase dois anos de Direito, Luiza está decidida em finalmente cursar o que sempre desejou. “Eu cresci com uma referência maravilhosa, que foi a minha avó, Yolanda de Andrade Claro, professora e diretora de uma escola pública de Rio Claro. E agora, depois de muito bater o pé e com o apoio das minhas tias, vou seguir na pedagogia e, logo depois, vou para Letras em homenagem à minha avó, que até hoje é a mulher mais forte e inteligente que conheci”.
Influenciar positivamente uma vida
A estudante de pedagogia da Unesp de Rio Claro, Tainá Spicka, nem sempre teve a profissão de docente como uma de suas opções. Foi no final do último ano, escolhendo entre os cursos da universidade municipal para poder ficar próxima de seus familiares, que a pedagogia lhe pareceu uma boa alternativa. Ela afirma que na atual conjuntura em que vivemos, infelizmente, os estudantes do curso são diariamente desencorajados a continuar nesse caminho.

Tainá
“O papel de professor é muito desvalorizado no país, o que desencadeia uma série de fatos, os quais me fazem pensar se é isso mesmo que eu devo fazer o resto da minha vida. Baixos salários e precárias condições de trabalho também ajudam na desmotivação. Contudo, isso é um sentimento desencadeado em mim pelos outros. Quando dentro de uma sala de aula, é somente você e os alunos, se você realmente ama o que faz, sabe que está no caminho certo e quer sempre buscar mais para a sua formação”, relata a estudante de 20 anos.
A futura professora afirma que tem muito orgulho de responder que cursa Pedagogia. “Muitas pessoas, vem me perguntar sobre, pois sou muito aberta a conversar e explicar sobre o meu curso. Sempre que vejo que a pessoa tem interesse, busco todas as partes boas desse curso que, apesar de intenso, é maravilhoso. Com certeza eu incentivo as pessoas ao meu redor a seguir esse caminho. As descobertas que você faz ao longo dele são fantásticas”.
Tainá já cumpriu dois dos três estágios obrigatórios impostos pela faculdade. Atualmente, ela trabalha em uma escola particular na cidade de Rio Claro, tendo, assim, um contato muito grande com a sala de aula. “A maior motivação que tenho é chegar ao fim do dia e ter a certeza que mudei a vida de alguém. É ver que, na sua frente, tem crianças cheias de sonhos e esperanças e que você pode ajudá-las a realizá-los. São os sorrisos voltados a você durante todo o dia. Creio que, de um bom professor, se dá um bom dentista, advogado, jornalista, médico. Com isso, saber que você influenciou positivamente uma vida, é uma sensação maravilhosa”, finaliza ela.
Por Ana Carolina Mariano