A data era 20 de janeiro de 1973, escolhida para inaugurar o Museu Histórico e Pedagógico “Amador Bueno da Veiga”, no prédio de esquina da Avenida 2. A notícia foi divulgada na capa do Diário do Rio Claro em 17 de janeiro de 1973. No tão esperado dia de abertura, a publicação remetia a um grande acontecimento para o município. Casarão estampado nas páginas do Centenário se transformou em um acervo de grande valor para os rio-clarenses e é possível acompanhar a trajetória de quase 50 anos por meio dos exemplares do DRC.

A mesma sensação tomou conta depois de 46 anos, com a reabertura do local para o público depois de ser tomado por incêndio em 2010.
O lado externo mantém ainda a fachada histórica que estampou as páginas do jornal quando foi anunciado. Já do lado interno, um toque de modernidade, com nova concepção de uso, com salas de exposições físicas e itinerantes, teatro de arena e estrutura para apresentações artísticas.
Na reinauguração, cinco exposições foram pensadas, trazendo memórias do município.

Antes deste momento tão cobrado e aguardado, o local foi tomado pelas chamas. Esta foi a manchete do dia 22 de junho de 2010. “Incêndio destrói Museu Amador Bueno da Veiga”. Manchete que o então jornalista do Centenário Antonio Archangelo não queria noticiar. Dias antes do fato que causou tristeza para Rio Claro, o profissional trouxe em primeira mão em uma das edições, a exposição de risco que o local estava.
Totalmente sem segurança e com facilidade de acesso por qualquer pessoa. “Comecei a acompanhar a situação do Museu pelo Diário, em relação ao acervo que estava num imóvel inadequado, desde que ele supostamente entrou em reforma. Quando entrei no Diário em 2007, o museu já não recebia visitas e como sempre gostei de história, achava um absurdo as peças serem acondicionadas em um imóvel onde era o antigo Projeto B, na Rua 1, de forma inadequada”, relembrou.

O jornalista diz que fez algumas matérias cobrando providências. “Junto com Anselmo Selligardi, resgatei a história do prédio do Solar da Baronesa e passei então a monitorar o prédio fechado”, contou.
Na matéria exclusiva, Archangelo mostrou que as janelas do prédio do antigo museu em suposta reforma estavam abertas. “Fiz a matéria para alertar, porque estava abandonado. Dias depois, o prédio pegou fogo. Me senti culpado por, de certa forma, divulgar o fato. Compareci ao local com o fogo presente, estava todo destruído, incluindo peças de valor histórico inestimável”, disse.

O jornalista continuou acompanhando a situação e, inclusive, chegou a receber voz de prisão. “Passei a ir no espaço toda semana e em uma destas visitas percebi que os portões que davam acesso ao imóvel passou a ficar aberto. Me lembro que entrei, me sentei no escombro, liguei para o Ministério Público e falei que estava em cima da réplica de Pietá.
Disse que estava aberto, alertei que poderia ser saqueado, liguei para outras autoridades avisando da situação. Em poucos minutos, o secretário de Segurança da época chegou e me deu voz de prisão por adentrar sem autorização. Minha sorte foi que um vereador chegou e evitou aquela lastimável situação”, exclamou.

“Foi, sem dúvidas, um grande desastre cultural para uma cidade que necessita urgentemente resgatar sua história (ou melhor, contar sua história) para as gerações futuras. A reinauguração do Museu pode vir a ser um primeiro passo para reconstruirmos o sentimento do que é ser rio-clarense”, avaliou o jornalista Antonio Archangelo, que fez questão de estar presente na inauguração dessa quinta-feira (29).

Para a Superintendente do Arquivo Público e Histórico de Rio Claro, Monica Brunini Frandi Ferreira, a reinauguração do Museu é um marco para o município e que também fará parte do acervo do arquivo por meio das páginas do Diário do Rio Claro. “Além de reconstruir a materialidade da edificação, foi dedicada atenção especial ao acervo custodiado pelo Museu, que atualmente está recebendo tratamento especial – higienização, acondicionamento e organização – em prédio mais adequado, de acordo com as normas de conservação preventiva”, destacou.
Ela avalia ainda que a compreensão dos processos históricos decorre da valorização, da recuperação, da conservação e do acesso ao patrimônio cultural – documental, arquitetônico, material e imaterial. “Os documentos e os seus testemunhos materiais – como a edificação ocupada pelo Museu Histórico e Pedagógico – nos ajudam a compreender as relações sociais e espaciais de outros tempos e devem servir de referência para as nossas ações no tempo presente.
Um caminho que tem dado bons resultados no processo de renovação urbana é o investimento em políticas públicas inovadoras que conciliem expectativas distintas – sempre prevalecendo o interesse da coletividade – e que compatibilizem a preservação e a manutenção de edifícios e conjuntos históricos com o aproveitamento econômico e desenvolvimento da cidade”, observou a superintendente.