Felipe Massa já tem data para encontrar Bernie Ecclestone e os representantes da Fórmula 1 e da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) no tribunal.
A Justiça inglesa agendou para os dias 28 e 31 de outubro deste ano as primeiras audiências do caso em que o piloto brasileiro busca ser reconhecido como o campeão do Mundial de Pilotos da temporada 2008 da Fórmula 1.
Será o primeiro passo judicial da disputa nos tribunais. Estas primeiras audiências vão analisar os aspectos legais mais relevantes do processo na divisão de King’s Bench, da Corte Superior de Londres, na Inglaterra. A informação foi publicada inicialmente pelo jornal O Globo.
As audiências jjá vão contar com a presença de todos os envolvidos no caso, bem como representantes da Formula One Management (FOM), além dos próprios advogados de Massa.
Este ato processual em que as partes envolvidas em um litígio se encontram perante o juiz para apresentar provas e argumentos, é um momento crucial no processo judicial, para permitir ao tribunal tomar uma decisão fundamentada.
O caso
A disputa entre Massa, F1 e FIA remete ao GP de Singapura de 2008, um dos mais polêmicos da história da categoria. Na ocasião, Massa e Lewis Hamilton brigavam ponto a ponto pelo título.
O brasileiro entrou naquela etapa com apenas um ponto atrás do inglês, na época defendendo a McLaren. E tudo caminhava para uma vitória na corrida e uma virada de Massa no campeonato.
No auge de sua trajetória na F1, o brasileiro, então na Ferrari, havia conquistado a pole position. No domingo de corrida, liderou até a 14ª volta, quando Nelsinho Piquet bateu intencionalmente sua Renault, por ordem do polêmico Flavio Briatore, chefe da equipe, para beneficiar Fernando Alonso, seu companheiro de time.
O espanhol havia feito pit stop duas voltas antes e estava com o tanque cheio – na época, havia reabastecimento dos carros durante as corridas.
A batida provocou a entrada do safety car na pista, o que mudou a história da corrida. Alonso, que largara em 15º, herdou e manteve a primeira posição até a bandeirada final. Foi o maior beneficiado pela batida. Massa foi o maior prejudicado porque ainda foi alvo de erros da Ferrari nos boxes.
Mesmo após cair para o último lugar da prova, o brasileiro terminou em 13º, mas sem somar pontos. Hamilton, seu grande rival no campeonato, foi o terceiro e viu sua vantagem crescer de um para sete pontos na tabela. O campeonato terminou com ele sagrando-se campeão mundial por apenas um ponto a mais que o brasileiro na classificação geral.
Confissão de Nelsinho
No ano seguinte, o filho do tricampeão Nelson Piquet entrou em contato com a FIA para admitir que bateu de propósito em Singapura para beneficiar Alonso. O brasileiro havia acabado de deixar a Renault, no meio da temporada 2009. E tinha o apoio do pai para fazer a denúncia, que veio a público em agosto daquele ano.
O Conselho Mundial de Automobilismo acolheu a denúncia, julgou o caso e distribuiu punições.
Desclassificou a Renault no campeonato e suspendeu os dirigentes envolvidos na polêmica decisão – Flavio Briatore, chefe da equipe, e Pat Symonds, diretor de engenharia. Alonso e Nelsinho foram poupados.
Apenas um ano depois, tanto Briatore quanto Symonds fizeram acordos com a FIA para serem liberados para atuar na F1. O primeiro assumiu cargo formal na Alpine em 2024, enquanto Symonds exerceu a função de principal responsável pela área técnica da própria F1 até o final do ano passado, sendo atualmente o consultor executivo de engenharia do programa Cadillac, que será a 11ª equipe de Fórmula 1 no grid em 2026.
Ecclestone e declaração polêmica
O caso – conhecido como Crashgate – voltou aos jornais em março do ano passado. Ecclestone, chefão da F1 por quase 40 anos, fez revelações bombásticas em entrevista ao site F1 Insider.
Questionado sobre os títulos de Hamilton, ele afirmou que considerava Michael Schumacher o único heptacampeão da história da F1, porque Hamilton não seria o campeão moral de 2008, na sua avaliação.
Ecclestone disse que considerava Massa o campeão daquele ano em razão do que acontecera em Singapura.
E foi além, revelando que ficou sabendo sobre a batida intencional de Nelsinho ainda durante 2008.
Essa informação é o grande fundamento das ações judiciais de Massa. O motivo é que, pelas regras da FIA, um campeonato não pode ter seus resultados alterados após finalizado. Ecclestone, porém, confirmou que estava ciente da trama da Renault ainda em 2008, com o campeonato em andamento.
“Max Mosley (então presidente da FIA) e eu fomos informados durante a temporada sobre o que havia acontecido na corrida de Cingapura. Nelsinho Piquet havia confessado ao pai, Nelson, sobre a ordem da equipe de acionar o safety car para ajudar Alonso a vencer. Implorei ao Nelson para manter a história em segredo”, afirmou Ecclestone, que é próximo do pai de Nelsinho – o inglês foi chefe de Piquet em sua época de piloto.
“Decidimos não fazer nada na época, para proteger a Fórmula 1 e salvá-la de um grande escândalo”, declarou, ao tentar justificar a decisão de não haver sido tomada nenhuma decisão sobre o caso ainda em 2008.
“Tínhamos informação suficiente na época para investigar o caso. De acordo com o regulamento, teríamos que cancelar a corrida de Singapura naquelas circunstâncias. Isso significa que aquela etapa não estaria contando para o campeonato. E aí Felipe Massa seria o campeão mundial, e não Lewis Hamilton”, finalizou o ex-dirigente.
Indenização
Além do reconhecimento como vencedor do título, o ex-piloto da Ferrari quer ser indenizado. O valor será calculado com base em três pontos centrais.
O primeiro deles é o bônus que Massa receberia da Ferrari pelo título, na casa de 2 milhões de euros (R$ 10,87 milhões), conforme citado no documento protocolado pelo advogado Richard Levett junto à Justiça britânica.
Também são reivindicados valores estimados que seriam recebidos de patrocínios e oportunidades comerciais que o piloto teria com o status de campeão mundial, assim como a diferença do salário que ele recebeu no restante da sua carreira na F1 e a quantia que receberia como campeão.
O montante exato será definido após prova pericial, mas a estimativa das perdas é de pelo menos 64 milhões de libras (cerca de R$ 463 milhões atualmente), sem correção ou juros.
A análise financeira da equipe jurídica de Massa foi feita por um especialista em casos de natureza complexa como este, e aponta que o valor final deverá ser ainda mais alto.
Por E. Cortez / Foto: Reprodução