Havia um bilhete sobre a mesa. Dizia: “Saí. Volto logo”. Deolinda não dera muita importância com a ausência do marido, senão pelo bilhete. Não era do hábito de Sergio Belucci deixar bilhetes informando sobre o que quer que fosse. Tinha esse nome porque o padrasto adorava filmes. E com ele Sergio aprendera a frequentar o cineminha da Paulista com assiduidade religiosa. Sempre vestia a sua melhor roupa, engraxava os sapatos, fazia a barba com a navalha sempre afiada. Perdia tempo significativo com tais minúcias, conforme observava a esposa, muito ocupada com os afazeres do lar e sempre muito crítica em relação aos hábitos do marido. Mas, ora, ora, onde já se viu, pensava ele. Botar comida na mesa para 12 filhos a cada dia não era tarefa fácil. Funcionário da ferrovia, até que não ganhava mal. Mas, 12 filhos, era uma tarefa hercúlea que lhe pesava sobre os ombros. Não foram poucas as vezes em que pensara fazer como o pai biológico, dar no pé, largar tudo para trás, esposa, emprego, filhos, toda aquela vida que dele tanto exigia.
Sergio não podia demonstrar dor, insatisfação, desagrado. Tinha que se manter firme, ereto e forte. Ainda que não fosse e nem tivesse vontade para isso. Seu nome era Sergio Belucci, bem entendido. Filho de um italiano boa vida, metido a conquistador e irresponsável. Um maledeto de um homo que não podia ver um rabo de saia, que se perdera no mundo, quiçá na vida, e nunca mais dera notícias.
A mãe de Sergio evitava tocar no assunto. Se ajeitara com um português muito cônscio de suas obrigações e muito responsável. Um sujeito dedicado ao trabalho, característica que transmitira sem muito esforço ao filho adotivo, que ajudara a criar desde as fraldas.
Tudo o que Sergio sabia do pai biológico viera por outras bocas, de gente que ouvira dizer que fora assim. Sabe-se lá. À medida que a idade ia avançando, e os movimentos das mãos e o raciocínio lógico ia ficando mais lento, Sergio pensava cada vez mais sobre o destino que o pai tivera.
A esposa, sempre atenta, se irritava com isso, e ele fazia-se de desentendido. Sergio suportava calado coisas e situações que lhe desagradavam. Tudo em nome da família e das aparências. Quanto ao compromisso assumido ao pé do altar, não dava a menor importância. Simplesmente não acreditava em nada daquela patacoada. Sergio era ateu, mas não era à toa. Gostava de leitura. Sempre que tinha um livro em mãos, dele se ocupava com muito gosto. Todos os anos, comprava o Almanaque que um seu amigo lhe trazia da capital. Nas horas de folga, que eram muito raras, dedicava-se a serviços extras em sua oficina nos fundos da casa, que lhe rendiam dinheiro extra e alguma satisfação. Tinha uma boa bancada e ferramentas suficientes para aceitar encomendas. Seu mais recente trabalho fora uma fonte d’água, a pedido de um vizinho agiota de muitas posses e discreto.
Deixar aquele bilhete propositadamente na mesa da cozinha para que a esposa o encontrasse pesava-lhe agora na consciência. Como deixar tudo para trás? A esposa doente, doze filhos, prestações da casa a vencer. Logo, Deolinda já não teria mais condições de se debruçar sobre o tanque para lavar as roupas do hospital, dos vizinhos e demais clientes.
A cena do filme que assistia no Cineminha da Paulista, naquela noite de quarta-feira, fizera-o pensar em tudo isso. Um dia antes, o presidente Vargas havia se suicidado. Sergio lembrou-se que sua última encomenda fora o ajuste da mira de um revólver que seu freguês ainda não havia buscado. Voltar para casa depois de terminado o filme, seguir em frente, como se nada tivesse acontecido, parecia-lhe a coisa mais sensata a fazer. Deolinda gostava de balas de hortelã. E talvez gostasse ainda mais, se ele lhe fizesse um carinho todo especial assim que chegasse em casa, para que, então, se lembrassem de seus melhores dias.
Por Geraldo Costa Jr. / Foto: Ilustrativa/Reprodução internet